E agora? Será que o meu filho é diferente? Será que o meu filho tem dificuldades?
- multiclic
- 20 de jan. de 2021
- 4 min de leitura
Na nossa prática enquanto profissionais vemos frequentemente os pais a serem confrontados com as dificuldades dos seus filhos, seja por comentários que ouvem socialmente “o teu filho ainda não fala?”, seja por uma dificuldade identificado pelo educador/professor ou quando é realizado um diagnóstico por um médico especialista.
O que é importante os pais saberem é que vários estudos mostram que a intervenção precoce ajuda a prevenir problemas que podem comprometer uma aprendizagem saudável, desenvolvimento normativo, uma comunicação eficaz e uma socialização adequada assim como a qualidade de vida da criança. O que quer dizer que quanto mais cedo forem identificadas e intervencionadas as dificuldades, maior a probabilidade de as mesmas serem ultrapassadas.
Aceitar que o nosso filho não é como idealizamos, aceitar que de alguma forma é diferente porque não tem um desempenho similar às outras crianças, da sua faixa etária é um processo complexo e difícil para as famílias.
A aceitação da diferença ou dos défices de um filho não acontece de um dia para o outro. São muitas as emoções a gerir e muitas perguntas que surgem “porquê eu?”, “porquê o meu filho?”. Na busca de respostas, os pais colocam tudo e todos em causa, é mais fácil direcionar a responsabilidade para si próprios “sou eu que não lhe tenho dedicado o tempo que precisa” ou “quando era mais pequeno eu…”, para a educadora ou para a professora. No entanto, quanto mais cedo aceitarem e iniciarem a intervenção, maior será o potencial de desenvolvimento da criança e menor o tempo de intervenção necessário, podendo assim superar os seus défices.
Aceitar a diferença é sobretudo um ato de amor. No caso da deficiência, é ver para lá dos défices, para lá da aparência e da vulnerabilidade. É aceitar e acreditar que existe a possibilidade de com intervenção e dedicação, se conseguir que a criança evolua. As metas traçadas serão diferentes, o caminho poderá ser diferente daquele com o qual se sonhou, mas tornará a criança mais capaz, eficaz e autónoma.
Quando a criança apresenta dificuldades ou défices em algumas áreas, os pais devem pensar que quanto mais precoce for a intervenção mais sucesso iremos ter, é isso que cerca de cinquenta anos de investigação nesta área, permitiram concluir. Os estudos demonstram que a intervenção precoce proporciona ganhos, ao nível do desenvolvimento e educação das crianças que dela beneficiam, melhorando o nível de funcionamento da família e produz benefícios económicos e sociais a longo prazo. A intervenção precoce demonstra ainda resultados positivos nas crianças, porque quando crescem conseguem apresentar um desenvolvimento e aprendizagem adequados ou mais próximo do que deveria ser, comparativamente com as crianças que não foram alvo de intervenção precoce.
Por vezes, as ideias pré-estabelecidas que ouvimos dos pais, como por exemplo “Eu era igual”, “Ele com o tempo vai lá, o irmão também foi”, “Em casa consegue” ou “em casa vamos trabalhar isso com ele”, que levam a que o diagnóstico seja feito mais tarde e inviabilizam assim, o sucesso da intervenção.
De fato, as crianças têm diferentes ritmos de desenvolvimento e de aprendizagem, no entanto, temos sempre que ter em conta o desenvolvimento normativo, por exemplo, um bebé deve começar a andar por volta dos 12 meses, se apenas adquirir este marco de desenvolvimento aos 16/18 meses é considerado desenvolvimento atípico e deve ser avaliada a situação. Esta avaliação é importante para despistar a existência de dificuldades motoras, para que se possa intervir nos mesmas e evitar problemas futuros, nomeadamente o comprometimento dos marcos de desenvolvimento seguintes.
Infelizmente, alguns profissionais da área da educação e da área da medicina desvalorizam as situações de desenvolvimento atípico, não auxiliando os pais para o diagnóstico e intervenção, e contribuindo desta forma para que a intervenção não seja realizada precocemente, acarretando consequências graves para o desenvolvimento, podendo comprometer uma vida adulta eficiente.
Dizemos com frequência que os diagnósticos não devem “assustar” porque com intervenção existem ganhos e evoluções, o não fazer nada é que poderá levar a uma situação de défices sem retorno, com consequências graves no desenvolvimento da criança e na vida adulta.
Dicas para os pais:
1. Estejam atentos ao desenvolvimento do vosso filho e aos padrões normativos para a faixa etária
2. Não se culpem - utilizem essa energia no sentido de ajudarem os vossos filhos;
3. Iniciem as terapias necessárias;
4. É importante que todos estejam em sintonia, família, técnicos, educadores/professores, a articulação do trabalho é essencial;
5. A evolução e o desenvolvimento levam tempo. Haverá picos de evolução extremamente rápidos e irão ficar surpreendidos com a quantidade de coisas que já conseguem fazer/dizer/aguentar; outras vezes, parece não haver evolução alguma e os pais começaram a questionar se o que estão a fazer até ao momento valerá a pena ou não. Por muito difícil e doloroso que seja, aguardem;
6. A escola e os serviços nacionais de saúde deveram funcionar como aliados ao desenvolvimento das crianças;
7. Consultas sim, sempre. São necessárias mesmo quando não concordem com o que ouviram ou considerem que não acrescentou nada. Há sempre exames ou avaliações a considerar ou estratégias a definir
8. E, acima de tudo, arranjem tempo para brincar. Nenhuma terapia do mundo vos pode ajudar se a criança não tiver aquilo que qualquer criança precisa de ter: tempo para brincar.
Susana Costa
Psicóloga









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