“Filho, presta atenção!”
- multiclic
- 2 de jun. de 2020
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Nos últimos anos tem sido cada vez mais frequente falar-se de crianças com hiperatividade/agitação psicomotora e que têm dificuldade em parar e em estarem atentas. Muitas vezes os pais referem comportamentos como: “não para quieto(a)”; “não consegue manter-se sentado(a) a fazer os trabalhos de casa sem estar constantemente a mexer-se”; “não conclui o raciocínio numa conversa, está sempre a saltar de assunto”; “mexe em todos os brinquedos mas acaba por não se manter mais do que uns segundos a brincar com cada um”; “a relação com os colegas é difícil porque não para quieto(a) e não consegue fazer um jogo de grupo até ao fim”; “levanta-se durante a aula sem permissão”; entre muitos outros que têm um impacto negativo no dia-a-dia da criança, quer na sua aprendizagem, quer na forma como ela se vê a si própria e na relação com os outros (família e pares).
A agitação psicomotora e as dificuldades ao nível da atenção, só por si, não são suficientes para um diagnóstico. Porém, são sintomas que podem ter na sua origem múltiplos fatores, desde fatores neurológicos, biológicos e genéticos, a fatores do contexto onde a criança está inserida, ou a fatores de ordem emocional e afetiva.
Na prática clínica, percebe-se que o domínio emocional e afetivo tem elevada influência neste tipo de comportamento, e isto pode ser justificado pela dificuldade da criança em pensar, elaborar e expressar as suas emoções e o seu sofrimento pela via verbal, utilizando um comportamento hiperativo como forma de expressão corporal dessa angústia.
Crianças em idade escolar que apresentam um comportamento muito agitado e dificuldades ao nível da atenção, geralmente têm dificuldade em estar sentadas durante períodos muito longos, em realizar as tarefas até ao fim, a sua atenção é deficitária, não conseguindo seguir instruções muito longas, tendo também dificuldades em organizar o material. A agitação psicomotora é caracterizada, essencialmente, pela presença de um excesso de atividade motora, dificuldades em regular e manter a atenção, dificuldades na regulação emocional e elevada reatividade, pouco domínio sobre os movimentos do corpo, dificuldades na mentalização e expressão das emoções e pela presença de um comportamento
com pouca intencionalidade.
Estas crianças tornam-se aos poucos, solitárias, não por opção, mas por rejeição dos amigos de escola. Estes afastam-se por diversas razões, como, conduta agressiva; desrespeito pelas regras dos jogos e pela frequente atitude dominadora. Pelos motivos mencionados, estes sintomas associam-se ao insucesso escolar e a dificuldades ao nível da aprendizagem. Todas estas características, não se solucionam simplesmente deixando passar o tempo, pelo contrário, tudo isto pode agravar-se. Como consequência do fracasso escolar, pessoal e social que estas crianças vivenciam diariamente, começam a manifestar-se sentimentos de insatisfação e mal-estar.
Os autores referem que a partir dos sete anos, se a criança não for ajudada, é possível que comece a revelar sintomas de depressão como consequência da sua incapacidade para se adaptar às exigências paternas, escolares e do grupo de pares, sendo por estes motivos, uma perturbação do comportamento que deve ser adequadamente tratada. O ideal seria que a deteção precoce do problema pudesse levar a uma intervenção que tornasse a adaptação escolar mais fácil.
Deixamos aqui algumas estratégias parentais para ajudar o seu filho a melhorar as dificuldades de concentração.
Valorizar comportamentos positivos
É importante que os pais demonstrem valorizar tanto comportamentos positivos, como os negativos. Reforços positivos (e.g. valorizar o esfoço dos filhos, realizar com a criança atividades que ela goste) têm um impacto direto no desenvolvimento de uma boa autoestima e autoconfiança, características que são determinantes para o aumento da sua capacidade executiva.
Dedicar mais tempo às tarefas
Além de ser fundamental fazer com que dedique mais tempo à tarefa, sobretudo às que lhes dão mais prazer, para aumentar a confiança e o grau de realização pessoal, é importante também mostrar-lhe que é necessário aprender a priorizá-las.
Assim, deixar as tarefas mais complicadas de lado quando estão cansadas para as resolver mais eficientemente quando estiverem mais concentradas, ou começarem pelas tarefas mais difíceis enquanto estão mais concentradas, deixando as mais fáceis para o fim por não serem tão exigentes, são algumas dicas úteis a observar. Em suma, organizar as tarefas por ordem de prioridades de importância e grau de complexidade, pode ajudá-las bastante.
Menos tempo em frente à televisão e eliminar elementos que causem distração
Estudos revelam que crianças que passam mais de duas horas a ver televisão ou em outras tecnologias (tablet ou telemóvel) manifestam dificuldades em se concentrarem nas atividades escolares.
Manter em cima da mesa de estudo apenas o estritamente necessário, manter tablets ou telemóveis afastados e, se trabalhar com o computador, evitar abrir páginas que não sejam úteis para a tarefa.
Contacto com a natureza
Passeios ao ar livre em áreas verdes ou brincadeiras no parque, diariamente, entre outras atividades na natureza, têm um impacto muito positivo no bem-estar físico e psicológico da criança, pois na natureza há menos estímulos para se distraírem, contribuindo assim para tranquilizar a mente.
Jogos didáticos e estimulantes
Realizar jogos que estimulem a criatividade e o raciocínio, bem como a sua capacidade de concentração, são ótimos exercícios para trabalhar o “músculo da atenção”.
Programar intervalos
No geral, a capacidade de concentração do ser humano tem uma duração muito limitada. Como tal, é contraproducente forçar uma criança a longos períodos que exigem concentração. Durante os estudos, por exemplo, agendar pausas de 10 minutos a cada hora ou hora e meia irá ajudar a criança a voltar ao estudo com as energias renovadas.
Aumentar a motivação
1. Pôr um relógio de ponteiros na mesa dos trabalhos de casa, negociando um período de tempo para os fazer. Se terminar mais cedo, o resto do tempo é passado a praticar uma atividade de que a criança goste (recompensa).
2. Ter tudo pronto para trabalhar: assim ela não tem de se levantar para ir buscar nada.
3. Criar um cartão em que os pais fazem uma rubrica de cada vez que os trabalhos forem feitos sem reclamar. Completado o cartão, ganham tempo para atividades com os pais.
4. Jogar jogos de tabuleiro com eles. É uma das melhores formas de treinar a concentração.
Cuidar da saúde
Para melhorar o desempenho cognitivo é essencial assegurar o seu bem-estar físico e psicológico. A criança deve ter uma alimentação saudável e equilibrada, fazer exercício físico, descansar o suficiente – entre 9 a 12 horas de sono por dia (para crianças dos 6 aos 12 anos) – e ter tempo para brincar, de modo a reduzir os níveis de stress e melhorar a concentração.
Em suma, tratando-se os sintomas mencionados de um problema de não conseguir fazer aquilo que se sabe que deveria ser feito, estas estratégias conduzem os pais a orientarem os seus filhos no sentido da autorregulação, promovendo a realização completa de tarefas e o cumprimento de regras.
A Psicóloga,
Ângela Pinto







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